quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Justiça das Aflições (cap. V do Evangelho segundo o espiritismo)

Assunto complexo este. Afinal, desde quando estar em aflição é justo?
Penso que primeiro é preciso que façamos um momento de meditação para que avaliemos se acreditamos mesmo em alguns postulados da Doutrina Espírita. O Primeiro e mais importante: Deus existe mesmo? Porque se não cremos nisso, nem adianta alongar o assunto. Se cremos, precisamos avaliar nossa crença em outro muito importante: Ele é mesmo Bom? É verdadeira a idéia de que Ele é Amor? Bondade Suprema? E se for... será Ele justo? Suas ações serão mesmo guiadas por um Inteligência superior a tudo que compreendemos?
Bom, pra facilitar, vamos presumir que concordamos com estes pontos. Que apesar de tudo e todos, algo lá dentro de nós nos afirma que tudo isso é verdadeiro.
Vamos lembrar então dos ensinamentos de Jesus. No Sermão do Monte, ao mencionar a lista de bem-aventuranças, ele não esqueceu do assunto: “Bem-aventurados os aflitos”. Falou dos que sofrem, dos que são perseguidos, caluniados. Falou ainda dos mansos e pacíficos.  Mas não falou que sofrer é bom. Não descobri ainda porque dizem que espírita gosta de sofrer... Coisa esquisita.
Nada disso. A Doutrina é clara nesse ponto: o sofrimento vem mesmo. E já que vem, há duas maneiras de passar– porque não parece, mas ele passa - por ele: desperdiçando todo ele e sofrendo por sofrer; ou tentando usar o entendimento e o sentimento para encontrar nele alguma coisa que possa trazer aprendizado, para que o sofrimento, posto que não pode ser evitado, traga ao menos um crescimento para nosso espírito. Isso nunca foi dizer que sofrer é bom...
Agora pensemos. “Aflição” é um termo muito amplo. Serve tanto para um desconforto, como um sapato que pega em um ponto do pé, como para um sofrimento profundo, para uma dor extremada. Mas se estamos em aflição, isso não interessa, não é? Sofrimento não tem graça. Nem medida: só eu mesma posso dizer o quanto estou em sofrimento. Ninguém, absolutamente, pode quantificar o que sinto, pode? E se sofro, e vejo que outros não sofrem, onde está a famosa Justiça Divina? Como pode ser isso justo, se nada fiz, que me recorde, que justifique tamanha aflição?
Pois é. Voltamos lá no começo... Se Deus é mesmo Pai Criador, “Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas”, Justo e todo Amor, precisamos parar para pensar nisso.
Porque o Espírito da Verdade faria questão de colocar essa frase? Só pode ser porque ao afirmar isso dessa maneira, fica claro que não somos fruto do acaso. Fomos criados por Sua Vontade, num ato voluntário, que só pode ter origem em Amor. E não apenas criados, mas criados em determinadas condições, dentro de Leis maravilhosas criadas também para beneficiar a todos. Porque a todos? Por que se nos criou a todos, e nos ama igualmente, fica impossível ser injusto. Se não, se favorecer um em detrimento do outro, então não pode ser Amor infinito e igual!
Que Leis? Ora, fomos criados todos “simples e ignorantes”, não? Mas ninguém falou em falta de condições. Ele, ao nos fazer, nos deu um presente sem preço: inteligência. Semelhante à Sua, não? Inteligência que nos permite aprender. Aprendizado que nos leva a melhorar essa inteligência, que nos faz aprender mais e melhor. Ad infinitum...
Para isso ser possível, nos fez imortais. Trocamos de corpo, de moradia, de família, de país. Nosso corpo pode ser ferido, morto, sem que altere o fato que continuamos adiante, aprendendo, evoluindo. Permitindo que façamos literalmente tudo que quisermos, em nome desse aprendizado.
Sabe como se chama isso? Livre-arbítrio. Seu significado é claro: “Tudo Posso”, como dizia Paulo de Tarso. E completava: “mas nem tudo me convém”...
Pois há ainda uma lei também sem contestação, muito bem postulada por Newton: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade.” Posso mesmo tudo; o que não me isenta das conseqüências de minhas ações. E não interessa se quero encará-las: elas virão, é a Lei. Sábia Lei, que nos ensina a todos imparcialmente. E que nos coloca outra questão importante. Há tantos que fazem tanto mal, e não parecem estar recebendo nadica das consequências devidas. E tantos que levaram a vida toda sendo estritamente corretos e colhendo apenas espinhos! E os que já nascem com problemas seriíssimos, dolorosos? Nem tiveram tempo de fazer algo errado!
O que nos leva a refletir na sabedoria infinita do mecanismo de reencarnação. Se temos confiança no Amor e portanto na Justiça do Pai, só é possível explicar a aparente injustiça de tantas coisas e situações que vemos no mundo através desse mecanismo. É a única conclusão lógica. Se fiz, retornará. Ponto. Quando? Quando for trazer algum entendimento para minha evolução. Antes, nada aprenderei, portanto é inútil. Então, se sofro agora só pode ser porque em algum ponto de minha trajetória como Espírito Imortal plantei o que agora colho. E que agora tenho sensibilidade suficiente para fazer disso algo útil para mim.
Podemos pensar nisso de outro ponto de vista...
Ao nos criar com capacidade de aprender  e de agir, Deus nos fez colaboradores, co-participantes da Sua obra: a Criação. Então, ao nos criar, já nos deu, de presente de nascimento, um plano de carreira! Temos nosso cargo garantido numa empresa familiar, onde somos filhos do Dono!
Como todo pai sábio, ele nos faz começar de baixo, ainda jovenzinhos, sob a vigilante guarda de nossos colegas e chefes mais desenvolvidos e experientes. Quando nos mostramos interessados, pró-ativos, demonstramos que somos capazes das tarefas que nos incumbiram, fazemos a juz a... benefícios! Aumentos, promoções, cursos. Temos autorização prévia para conhecer e estagiar em todos os departamentos, tarefas, locais. Depende apenas de nosso esforço em encarar as tarefas desafiadoras que nos são designadas, e do interesse em aprender coisas novas. E de tempos em tempos, ainda recebemos dicas, orientações e treinamentos de outros mais qualificados, que já passaram por nossas tarefas e sabem o “caminho das pedras”. E no-lo ensinam, sem mesquinharia.
Se somos arrogantes, descartamos o que nos dizem; se somos humildes, esforçamo-nos por colocar essas dicas em prática, aprendendo com a experiência. Também aprendemos e ensinamos com os que estão no mesmo nível que nós, na medida que interagimos e interdependemos um do outro para bem desincumbirmos de nossas metas, às vezes individuais, às vezes coletivas. A cada promoção, os benefícios aumentam, claro, na mesma proporção que aumentam nossas responsabilidades. Ao adquirir um pouco de conhecimento, somos incumbidos de ensinar também os que são colocados sob nossa tutela. E temos todos a meta de galgar cargo por cargo até que cheguemos à diretoria, próximos ao Pai presidente, colaborando ao máximo nessa empresa fantástica que é a Criação.
Claro, podemos bancar os rebeldes, colocar à frente que não podemos ser demitidos; recusar-nos a trabalhar, descumprir tarefas e metas, atrapalhar os que cruzam nosso caminho. Afinal, tudo podemos...
Nossos colegas e encarregados, certamente, seguirão as diretrizes do Pai, e tomarão medidas para neutralizar nossa influência. Nos legarão alguma tarefa que cumpramos mesmo sem perceber, pois conhecem nossa índole e disposição. Assim, serviremos como alavanca de aprendizado a outros que fazem corpo mole; circularemos apenas por determinadas áreas, sendo vetadas outras onde não teríamos utilidade. Isso não nos faz esquecer o que quer que tenhamos aprendido antes, certo? Nem somem de nosso íntimo as experiências que tenhamos passado. Estacionamos. Se não subimos, também não regredimos... Essa atitude é permitida enquanto a quisermos, e seremos tolerados sempre. O que acontece é que enquanto permanecermos nessa, seremos continuamente transferidos onde possamos ter utilidade sem que possamos dizer nada a respeito; mesmo porque, depois de algum tempo essa atitude gera em nós desconforto e mesmo tédio (ou será sofrimento???).
A parte boa é que, a qualquer momento que desejemos, podemos alterar tudo, retificando nossa atitude, nossas metas e tarefas. Isso permanece sob nosso controle apenas, bastando querer realmente: nossos superiores e colegas encarregam-se de nos reencaixar em posições mais adequadas onde possamos mostrar nossa competência.
Deus nos dá, diária e ininterruptamente, provas e mais provas de seu Amor por nós. Pequeninas, sim, mas constantes, como as pedrinhas do conto de João e Maria. E mais: essas provas são totalmente individuais. São tão individuais que outra pessoa não as nota nem as decodifica, porque só são significativas para aquele a quem são dirigidas, mais ninguém.
Quando sentimos dor, nosso corpo instintivamente se encolhe como proteção; quando nosso Espírito se sente ferido, faz o mesmo, e nos encolhemos, voltando-nos para dentro de nós. E isso é bom! Se não fosse assim, talvez nunca nos déssemos ao trabalho de olhar par dentro de nós mesmos, aliás, coisa bem difícil de fazer. Mas depois de algum tempo, passa a ser ruim, se insistimos em não vir para fora de novo. É preciso que algo ou alguém nos chame de volta para a Vida. Pode ser um amigo, uma música, uma palestra, um comentário, uma notícia, um texto na internet. Não importa, se cumprir a função de nos fazer olhar para fora e perceber as pedrinhas, as provas do Amor Divino que estão espalhadas no nosso caminho.
Conhece aquele adesivo que tem por aí nos carros: “não sou dono do mundo, mas sou filho do dono”? Pois é bem esse o foco! Somos herdeiros, por direito de nascença... do Universo! É essa certeza que adquirimos quando conseguimos decodificar as provas que nos são dadas. Certeza que o Amor de Deus, que ama tudo, também tem uma face individualizada, voltada em nossa direção! É essa certeza que se chama .
É por isso que Fé é algo que não é possível emprestar, doar, ceder... é nossa apenas. Essa Fé, essa certeza do Amor individual de Deus por nós que é o grande “truque” de que falava Jesus quando dizia: “Vem comigo”. Ele nunca, em nenhum momento, disse para segui-lo que assim não sofreríamos. Jamais. Ele foi muito claro, como sempre. Dizia para segui-lo, pois assim nosso jugo ficaria mais leve...
É essa certeza também que nos dá a convicção de que nossas aflições não vão durar para sempre. Só o tempo necessário para que absorvamos o que temos para aprender. Afinal, como herdeiros que somos, como partícipes e co-criadores, temos ainda toda a Obra da Criação pela qual passar, inúmeros departamentos que ainda não conhecemos, cargos e tarefas que ainda não cumprimos. Ela está aí, esperando por nós.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Apresentando

A gente pensa tanta coisa!
Depois, o pensamento voa, e muito se perde.
Vou registrar aqui estes vôos.. Talvez algo se ganhe...